UMA BREVE HISTóRIA DOS TúMULOS DOS FARAóS NO VALE DOS REIS

Só as pirâmides parecem competir em celebridade com ostúmulos profusamente decorados que foram escavados no Vale dos Reis para sepultar os faraós do Império Novo. Mas como se transitou de umas para os outros?

Para o compreender, temos de recuar às origens do Antigo Egipto e ao momento em que osfaraós das duas primeiras dinastias(em 3000-2660 a.C.) eram sepultados em câmaras escavadas no solo sobre as quais em seguida se construía uma estrutura rectangular, a “mastaba”. Na III dinastia, no início do Império Antigo (2660-2180 a.C.), estas mastabas transformaram-se nas pirâmides escalonadas de pedra, que passaram a ter faces lisas na IV dinastia (a época das pirâmides de Guiza) e que durante o Império Médio (2040-1780 a.C.) foram revestidas com lajes de calcário.

Eram sepulturas maravilhosas, que satisfaziam as necessidades de ostentação e de protecção do corpo do faraó, enquanto existiu no território uma autoridade central forte. Essa autoridade viria a desaparecer nos períodos intermediários que separaram o Império Antigo do Império Médio e este do Império Novo e foi sobretudo então que ocorreram os saques de túmulos.

A recuperação da autoridade faraónica deu azo à fase de maior esplendor do Egipto: o Império Novo (1560-1070 a.C.), que teve a sua capital na cidade de Tebas. Ali existia a tradição de sepultamentos emtúmulos escavados nas paredes das montanhas e colinas da margem ocidental do Nilo. Reconhecendo a natureza pouco segura das pirâmides e da velha tradição funerária, os monarcas da nova dinastia prescindiram das potencialmente saqueáveis pirâmides e optaram por enormes túmulos subterrâneos (os hipogeus) profusamente decorados. Para maior protecção das suas múmias, decidiram também separar o local de culto do soberano do seu lugar de enterro, preferindo um vale escondido por trás de uma escarpa de rocha, com uma pequena entrada fácil de vigiar.

A necrópole de milhões de anos

Essa necrópole, conhecida na altura como “a grande e nobre necrópole de milhões de anos do faraó, que viva, seja próspero e tenha saúde, a oeste de Tebas”, só seria abandonada durante o Terceiro Período Intermediário (1070-664 a.C.), quando a capital do Egipto e os túmulos reais foram transferidos para o delta. Na época grega e romana, os túmulos abertos do Vale dos Reis foram um local de visita habitual para os turistas, que deixaram inscrições nas suas paredes.

Na época copta (século IV d.C.), uma comunidade de cristãos decidiu usar os hipogeus como residências para uma vida monástica em solidão sem prestar demasiada atenção ao seu conteúdo ou anterior função. O desinteresse pelos túmulos prolongou-se até à época muçulmana a partir do século VII d.C. O local recebeu então o nome actual de Biban al-Moluk, “O Vale das Portas dos Reis”.

A fase das explorações “arqueológicas” modernas foi inaugurada em 1799, quando Vivant Denon visitou o local acompanhado pelas tropas napoleónicas. Chegariam mais tarde as escavações de Giovanni Belzoni (o homem que descobriu o túmulo de Seti I) e outros antiquários. Só com a criação do Serviço de Antiguidades do Egipto em 1858 é que se deu início ao estudo científico do Vale dos Reis e dos seus tesouros, no qual se destacaram o egiptólogo Victor Loret (autor de 17 descobertas de túmulos) e o investidor norte-americano Theodore Davis (sob cujo patrocínio foram abertos 34 hipogeus).

Em 1922, quando já se considerava que a tarefa estava praticamente terminada, Howard Carter viria a identificar ainda o túmulo de Tutankhamon – o mais vistoso de todos, na medida em que não fora penetrado por salteadores e preservava todo o espólio funerário do faraó-menino.

As recentes descobertas dos túmulos KV63 (encontrado em 2005 nas campanhas de Otto Schaden), KV64 (identificado em 2011 por Susanne Bickel e Elina Paulin-Grothe) e KV65 (em 2018 pela equipa de Zahi Hawass) demonstram que o vale continua a conter informação muito valiosa.

Artigo publicado originalmente na edição nº 16 da revista National Geographic História.

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